Confiança

É estranho esse negocio (é acentuado ou não?) de confiança. Há 7 anos atrás eu fui fazer faculdade em Botucatu. Acabei indo morar com a Priscila, uma amiga que conheci no cursinho, e uma outra menina que essa minha amiga conheceu no dia da matrícula. Depois de 6 meses resolvemos procurar um canto para gente (entenda-se Priscila e eu). Como é difícil encontrar uma casa que nos apetecesse. Tinha de ser perto da avenida principal, pois dependíamos de carona para irmos para a faculdade. Botucatu é uma cidade que padece de transporte público, os ônibus só passam de hora em hora e dão uma volta tremenda na cidade. Assim, os estudantes dependem principalmente da boa vontade alheia em dar caronas para aqueles desprovidos de carro. Mas também não podia ser tão perto da avenida, por causa do barulho. E é lógico que teríamos de gostar da casa.

Andamos, visitamos, andamos mais um pouco e nada. Até que um dia um amigo comenta comigo que tem um conhecido dele que alugou uma casa, mas por motivos pessoais não poderia ficar lá. A namorada tinha passado na pós graduação em outra cidade e ela ia para lá com a filha deles, então ele ia com elas. Só que o contrato que ele tinha feito era de 18 meses e caso fosse quebrar o contrato tinha de pagar um multa imensa. Assim, o melhor seria colocar alguém na casa para que não pagasse multa. E lá fomos nós conhecer a casa.

A casa era ótima: paralela a avenida, perto do mercado, padaria, casa de amigos e também era perto de um ponto de carona. A casa possuía 2 quartos e um quintal imenso. Havia pé de pitanga, goiaba, banana, tomate, beringela, maracujá. Uma plantação no fundo da casa e o preço do aluguel estava dentro do que queríamos pagar.

E agora começa a questão de confiança. Ele saiu da casa e nós entramos. Não foi feito nenhuma mudança no contrato. Assim o contrato continuava no nome dele, assim como os fiadores continuou a ser os pais dele. Devo ter falado com ele umas 3 vezes, no máximo, antes da mudança. Não o conhecia, nem nunca tinha visto na faculdade. Mas mesmo assim ele confiou que não teria problemas em deixar a casa com a gente. E realmente não teve. Pagávamos o aluguel no dia, não éramos inquilinas problemáticas nem nada. Arrumávamos o jardim, dava as frutas para quem queria, não éramos de fazer arruaça nem festas. Enfim, não havia motivos para reclamar da gente.

Depois do fim do contrato, renovamos e renovamos e renovamos. O período inteiro da minha faculdade eu morei naquela casa. Foram 5 anos da minha vida lá. Durante esses 5 anos até chegamos a cogitar morar em outra casa. Chegamos a procurar, principalmente depois que entrou mais uma moradora. O problema é que agora tinhamos 3 cães e nem todas as imobiliárias alugam casa para quem tem cães. Outras casas não eram adequadas para cães. Um problema a mais na hora de encontrar a casa certa. No final acabamos não mudando de casa.

Depois de 5 anos, a faculdade chegou ao fim e eu me formei. Voltei para São Paulo, após largar o mestrado ao qual tinha passado, mas não tinha começado. Deixei algumas coisas minhas lá, principalmente móveis pessoais, como cama, armário, escrivaninha. Alguns foram vendidos, outros ficaram com a Priscila. Eletrodomésticos que comprei com a Priscila, também ficaram por lá como forma de pagamento da pintura da casa que deveríamos pagar quando saíssemos da casa.

A linha de telefone que estava no meu nome continua no meu nome. Faz 3 anos que saí de lá e isso não foi alterado. E eu não tenho receio de ter uma conta no meu nome, mesmo que eu não esteja utilizando ou conferindo. Confio na Priscila. Moramos juntas por 5 anos e nunca tivemos problemas com as contas. As contas sempre foram pagas em dia, divididas igualmente entre todas nós. As ligações particulares do telefone sempre bateram. E olha que dividir a conta de telefone sempre foi um saco. Era necessário procurar número por número, principalmente porque a maioria das ligações eram interurbanas. Então vinha relacionado na conta, mas nunca tinha um número estranho que ninguém reivindicava.

Sempre ouvi o ditado “Amigos amigos, negócio a parte”, mas não tive problemas em juntar amizade com finanças nesse caso. E espero que continue assim. Essa é uma amizade que eu não gostaria de perder. Sobrevivemos a 5 anos morando juntas, mais 3 anos separadas. E separadas por 250 km de distância.

Ps: Eu lembrei dessa história porque encontrei hoje com a Priscila e ela veio me contar o drama que foi mudar o plano do telefone. Além de ficar pendurada no telefone para explicar o que ela queria, ter de confirmar trocentas vezes vários dados (inclusive os meus), ela tinha de explicar qual a relação dela comigo. Chegaram até a perguntar se tínhamos nos separados. Acho que apenas casais podem morar juntos pelo visto.

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Autor: Fernanda

Zootecnista e Cientista da Computação. Precisa dizer algo mais, além de ter certeza que não deve ser normal?

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