Só vivendo para saber

Imagine o seguinte: “Uma família com um casal de filhos. Os filhos estão por volta dos 20 e tantos anos e os pais já são considerados meia-idade. A mãe é diabética e a doença afetou os rins. Faz hemodiálise 3x/semana e está na fila do transplante.”

Uma história que se repete em diversas casas. O que se espera nesse caso é que os filhos façam teste de compatibilidade para doar um rim para a própria mãe, certo? Só que o pai não permite que eles façam o teste. Já ouvi muitas críticas pela atitude do pai, mas parei para pensar a visão do pai. Será que ele está errado em querer preservar os filhos a uma cirurgia invasiva e que pode não ter sucesso? Além de ter riscos para ambas as partes? Sei que as maiores chances de encontrar compatibilidade é dentro da própria família, seja filhos ou irmãos. Mas mesmo assim a chance de rejeição ainda existe.

E os filhos? O que será que passa na cabeça deles? Será que sentem que é a obrigação deles? Em situações assim é muito comum pensar que é dever dos filhos ajudarem os pais. Já que é graças aos pais que eles existem, foram educados, possuem uma cama quentinha e comida na mesa. Mas será que é certo esperar que eles ofereçam uma parte do próprio corpo em retorno?

E a mãe? Como ela se sente e pensa nessa situação toda? Será que ela aceitaria o órgão doado pelo próprio filho? Ou preferiria morrer a fazer algo arriscado ao próprio filho?

Não existe o certo e errado e em casos assim, a linha da moralidade é tênue ou até mesmo inexistente. Esse assunto apareceu esses dias aqui em casa durante o jantar. Meu primeiro pensamento foi: eu doaria um órgão para a minha mãe sem pestanejar. Aliás, acredito que seja o primeiro pensamento da maioria dos filhos. Já a minha mãe ficou pensando como mãe. E chegou ao ponto que acredita que já aproveitou bastante da vida e não faria isso com os filhos. Hoje ela vê os filhos saudáveis, mas e daqui a algumas décadas? Será que ter os dois rins não será importante no futuro?

Meu pai não estava na mesa e por isso não sei a opinião dele, mas eu acredito que ele não proibiria nenhum dos filhos de fazer o teste. E ao mesmo tempo não ficaria pressionando para doar. Iria deixar que a opinião viesse de cada um.

Depois da janta continuei pensando sobre o assunto e lembrei dos pais que têm mais um filho para que possam servir de doador a outro filho. Isso acontece geralmente em casos de leucemia, onde é necessário haver transplante de medula óssea. Apesar de ser uma doença onde o doador não fica prejudicado no futuro, a retirada de medula óssea é um procedimento bastante doloroso. Será que é justo ter mais um filho com o objetivo de salvar outro?

Fico pensando no psicológico do doador quando descobre que nasceu simplesmente com o objetivo de salvar o irmão. Será que isso faria os irmãos mais unidos ou o deixaria revoltado? Eu nem consegui imaginar como me sentiria em um caso assim, seja o irmão doente ou o irmão que nasceu com um objetivo já traçado. Pior, e se não forem compatíveis? Qual será o sentimento dos pais? Qual será o sentimento do próprio filho?

Quando entra laços de família, sentimentos e caso de morte é sempre complicado definir o que é certo ou errado, isso quando essa definição existe. Acho que para ter certeza do que faria só passando pela situação mesmo, o que eu realmente espero que não aconteça comigo. São situações difíceis e que dependendo da decisão tomada pode acarretar consequências para o resto da vida.

E todas essas questões levantadas e sem resposta me fez pensar na famosa frase de Hamlet: “To be, or not to be: that’s the question”.

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Autor: Fernanda

Zootecnista e Cientista da Computação. Precisa dizer algo mais, além de ter certeza que não deve ser normal?

6 comentários em “Só vivendo para saber”

  1. Oi Fe! Vc assistiu o filme “a Decisao de Anne”? Creio que no Brasil tem o mesmo nome. É com a Cameron Diaz e fala exatamente sobre isso, sobre uma menina que nasceu para ajudar sua Irma que tem câncer. Tenta assistir que vc vai gostar. Te faz pensar. Bjs

    1. Alê,

      Eu não assisti esse filme não, mas já coloquei na minha lista de filmes a serem assistidos. Sempre é algo para se pensar né…

      Beijos

  2. Pensar esse tipo de questão é uma bela forma de descobrir mais sobre nós mesmos. Projetar o que faríamos em situações limítrofes nos permite delimitar prioridades e valores. Gosto muito desse exercício, por mais doloroso que ele possa ser.

    1. Confesso que nunca tinha parado para pensar sobre o assunto antes disso. É aquele tipo de coisa que a gente pensa que nunca vai acontecer com a gente. E só quando está ao nosso lado, paramos para pensar. E mesmo assim, com aquela dor no coração, mas ao mesmo tempo sem tanto peso por não estar acontecendo realmente.

  3. Olá Fernanda, achei seu blog por acaso e gostei muito do texto, de suas reflexões. Concordo que é importante considerarmos esta situação de crise e/ou limite com muito cuidado, atenção e respeito. Como você diz, é mesmo complicado dizer o que é certo ou errado. Vida e morte, assim como perdas siginificativas, como a perda da saúde, mobilizam sentimentos ou emoções, e respostas diversas em qualquer ser humano. Parabéns pela publicação e pelo espaço. Pretendo visitar mais vezes. Quando tiver um tempinho, visite o meu: http://construindosentidos.blogspot.com/

    Abraços!

    1. Oi Stella,

      Obrigada pelos elogios. Esse assunto é bastante complicado mesmo. Passei pelo seu blog e vi que você é psicóloga especialista em luto. Talvez já tenha acompanhado algum caso parecido na sua vida profissional. Acredito que lidar com o luto, ainda mais na profissão deva ser algo extremamente difícil, ainda mais por ser necessário que não te afete na vida pessoal. Passarei mais em seu espaço também.

      Abraços.

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