Fuga do campo 14

Tenso. Muito tenso. Essa é a melhor definição durante toda a leitura desse livro. Não é possível ler esse livro sem ficar tenso. Um trecho do livro reflete bem os sentimentos que tive durante a leitura:

“Naquela noite, seus ouvintes contorceram-se em seus bancos, os semblantes revelando desconforto, asco, raiva e choque

Ps: Tentei ao máximo não contar detalhes da história, mas para pessoas mais sensíveis pode conter spoilers.

O livro relata a história de Shin In Geun, uma pessoa que fugiu do Campo 14, campo de concentração, da Coréia do Norte. O campo 14 é mais mais um dos diversos campos de concentração existentes na Coréia do Norte para inimigos políticos e com reputação de ser o mais duro de todos devido as condições de trabalho brutais. Já foi mapeada a existência de pelo menos seis campos, sendo que o maior deles possui uma extensão maior que a cidade de Los Angeles.

Muitos desses campos estão os prisioneiros chamados de irredimíveis, onde são forçados a trabalhar até a morte. O campo do livro em questão, Campo 14, é um deles e abriga cerca de 15 mil prisioneiros. Sendo que muitos deles nasceram lá e desconhecem o mundo exterior. E  muitos morrerão lá dentro também.

Shin é um desses prisioneiros. Nascido e criado no Campo 14. Seu crime é ter o sangue maculado pelos supostos crimes cometidos pelo irmão do seu pai. Não é necessário ter uma acusação, julgamento ou recurso. E tudo ocorre em sigilo. Pela regras do país é necessário punir pelo menos 3 gerações dos culpados para poder limpar o sangue.

As regras nesses locais é totalmente diferente do que temos conhecimento. Não existe relações familiares. Para Shin, sua mãe é alguém que competia pela comida. Seu pai é uma pessoa estranha e ele mal conhecia o próprio irmão. Não tinha amigos nem pessoas em quem confiar. Sem palavras de afeto ou demonstrações de carinho. Sem felicidade. Sem sonhos.

Um país cujo slogan “Vamos fazer duas refeições por dia” para aqueles que possuem liberdade, é possível imaginar como é a vida desses prisioneiros políticos. Ou melhor, não é. Relatos de pessoas mortas devido ao “roubo” de 5 grãos de milho a pauladas é considerado comum nesses campos. Pessoas morrendo de fome, crianças torturadas, forçadas a trabalho árduo. Pessoas sendo tratadas piores que animais. Estima-se que duzentos mil prisioneiros vivendo dessa maneira.

Shin fugiu em janeiro de 2005. Antes disso nenhuma pessoa nascida em campo de prisioneiro político da Coréia do Norte havia conseguido fugir. E pelo que se sabe, ele continua a ser o único. Tinha 23 anos e nenhuma pessoa conhecida no mundo exterior. Diversos fatores contribuíram para que ele tivesse sucesso nessa empreitada. Mas pela sua história, pode-se dizer que sorte não é uma delas.

As dificuldades não acabaram quando ele conseguiu fugir do Campo 14. Era necessário fugir do país para não correr o risco de ser levado de volta. E então se adaptar ao mundo exterior, tão diferente mundo que vivia. Conviver com outras pessoas, confiar, tantos outros conceitos e emoções que lhe eram proibidas. Lidar com o passado, as emoções, os sonhos, os pesadelos. Para Shin, ainda não acabou.

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Autor: Fernanda

Zootecnista e Cientista da Computação. Precisa dizer algo mais, além de ter certeza que não deve ser normal?

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