Minha árvore

Sabe aquela história de que todo mundo deve plantar uma árvore e escrever um livro antes de morrer? Então, eu nunca plantei nenhuma árvore, mas mesmo assim tinha uma árvore que era considerada minha. Essa árvore se tornou minha porque era o local onde eu descia quando voltava de Botucatu. Dava para ver a árvore de longe na estrada e já sabíamos que tínhamos de ir para a pista da direita para que eu pudesse descer. Era super fácil de enxergá-la, principalmente na primavera e verão quando estava frondosa. Já no outono e inverno só víamos galhos, mas nem por isso deixava de ser possível enxerga-la de longe.

Por eu indicar como ponto de referência, começaram a falar que era lá que eu morava. Teve uma menina que realmente acreditou que eu morava numa árvore!! Não sei se o fato da menina ser do interior fez com que acreditasse nisso, mas foi realmente engraçado quando ela veio até mim perguntar se eu morava na árvore e se tinha foto da casa. rs

Eu não tenho foto dessa árvore, principalmente porque eu voltava a noite de Botucatu. Então mesmo que eu tentasse, não daria para ver muita coisa. E confesso que tirar a máquina fotográfica na beira da estrada não era muito seguro, ainda mais que já haviam me avisado que o local era perigoso. Assaltos já tinham ocorrido na área antes. Havia uma escada que ligava a a estrada com a cidade e era por lá que eu descia. Só que era difícil visualizar mais embaixo, e era aí que ladrões se escondiam. Por sorte, nunca fui assaltada lá. Mas confesso que eu descia aqueles degraus correndo e olhando para todos os lados.

Já faz 2 anos que eu sai de Botucatu e não desço mais na estrada. Entretanto essa semana uma amiga minha veio me falar que cortaram a árvore. Não sei por qual motivo que a árvore foi cortada. Se foi por causa de cupins, se estava atrapalhando fiação, visão ou qualquer outra coisa. E apesar de não descer mais naquele local, toda vez que passava por ali, lembranças vinham na minha cabeça.

A distância de Botucatu – São Paulo é em torno de 250 km, ou seja, pelo menos 2 horas dentro do carro. E muita coisa ocorre nessas 2 horas. São histórias, cantorias, papo jogado fora, zoações, etc. Caso voltasse de ônibus seriam 3 horas de viagem e muito mais silêncio, já que há outros passageiros. Mas no carro não, geralmente todo mundo se conhecia, então é farra na certa. E era muito mais cômodo voltar de carona, já que me pegava em casa. Só que tinha seus pontos negativos também como atrasos na hora de sair e paradas na pista. Além de não ter filme durante a viagem. No ônibus é comum passar um filme, mesmo que seja velho.

Mas nem tudo são flores também. Uma vez voltei com uma menina que mora perto da minha casa em SP. Ou seja, comodidade dupla: ela me pegava em casa em Botucatu e me deixava em casa em SP. Maravilha, não? Não muito. Se a pessoa que estava no banco do passageiro falasse com ela, o carro atropelava todas as tartarugas a direita. Se ninguém falasse com ela, as tartarugas da esquerda eram as vítimas. E não era uma ou duas tartarugas. Eram TODAS. Fora que pegamos uma chuva muito forte. Não dava para enxergar mais que meio metro pra frente. Ela diminuiu a velocidade, mas não muito. Ficou a 90km/hr e muitas vezes encontrou entre duas pistas ou muito perto do carro da frente. Confesso que aquela viagem foi a que eu mais tive medo na minha vida. Só voltei com ela, pois já tinha combinado. Mas foi uma vez para nunca mais. Tenho amor a minha vida.

Apesar dessa e alguns outros problemas (como demorar 8 horas para voltar), eu sempre preferi voltar de carona do que de ônibus. Tenho saudades dessas viagens. Hoje em dia, é muito difícil eu ter pelo menos mais uma pessoa no meu carro. Geralmente é só eu mesma. Infelizmente. Vida em SP é assim.